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Aprenda a focar como um profissional

Aprenda a focar como um profissional

Ei, fique calmo. Se você é como eu posso afirmar que você não sofre de Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade, ou mais popularmente chamado de TDAH. Você simplesmente não sabe como se concentrar.

Resolvi falar um pouco sobre esse assunto pois já ouvi várias pessoas usando a desculpa de sua falta de atenção em fatores externos: “Minha capacidade de atenção é de, tipo, dois segundos.” “Eu devo ter TDAH.” ou “Não posso simplesmente sentar e trabalhar seis horas seguidas.” “Eu sou como aquele cachorrinho do filme UP que perdia a concentração quando… olha, esquilo!” 

Interessante como que para muitos de nós o fator atenção é considerado como algo genético, fixo, imutável, como a cor do cabelo e a cor dos olhos: algo que você tem ou não tem. Que nasceu assim e não tem o que fazer.

Como quase tudo que se reproduz, como a maioria de nossas narrativas culturais, isso é uma besteira total.  Sabe por que você não consegue se concentrar? É que você nunca se preocupou em aprender a fazer isso.

Uma coisa que muitas pessoas não sabem sobre mim é que perco minha concentração com muita facilidade. Não estou brincando. Por décadas eu sempre acreditei que era “multitarefa” e que “era bom quando fazia várias coisas ao mesmo tempo”. Pobre morta, não tinha ideia da diferença entre ser ocupado e ser produtivo.

Graças a Deus todo o ser humano pode evoluir (ou pelo menos deveria) e nos últimos anos consegui entender e aprender (pretendo escrever sobre a diferença entre estas duas palavras em breve) que nosso cérebro, por mais incrível que seja, só funciona em sua plenitude quando focado em uma única coisa. (sugiro ler este livro…)

Ah, tem o agravante de ser homem.

Enquanto eu baixo o volume do rádio quando paro no semáforo, minha esposa conseguia estudar, cozinhar, arrumar nossos filhos para escola e ainda me dar uma puxada de orelha por ter deixado a tampa do vaso aberta, isso tudo dirigindo 🙂

 Mas voltando ao tema foco e concentração (quase perdi o foco), uma das coisas que aprendi para conseguir me concentrar em algo ou ter foco em determinada coisa é o que na linguagem médica, são chamadas de intervenções – especialistas que intervêm em nome da pessoa com deficiência. E não considere esta palavra em sua conotação pejorativa. Interpreto-a como a falta de uma habilidade, onde precisei de orientação profissional especializada para que eu conseguisse aprender a me concentrar.

Quando comecei a perceber esta situação, ao ponto de estar pensando em várias coisas como ser incapaz de lembrar meu horário de intervalo na aula, esquecer literalmente do que estava fazendo (dizia que eu entrava num looping infinito e prendi que isso é chamado de estado de fluxo ou flow. Quando eu começava a criar algo, ler um livro, ou editar algum vídeo, às vezes, passavam-se horas sem que eu fosse ao banheiro ou sentisse fome e dificilmente pedia ajuda a alguém.

Fora essas situações, qualquer outra me causava uma sensação constante de inquietação e frustração.

Até que por perceber estas situações, comecei a construir o hábito de anotar as coisas em um caderninho, ou pedaço de papel ou no “Grupo de Whatsapp que criei comigo mesmo” (calma que eu explico) onde qualquer ideia que vinha eu jogava ali… Claro que evoluiu para uma agenda, um calendário e uma lista de tarefas pendentes com a utilização de aplicativos. No treinamento que eu fiz este “amansa burro” é chamado de “depósito de TemQ”. Tudo o que eu tenho que fazer, eu jogo ali dentro para que eu não perca o foco no que estou fazendo.

Alguns colegas até me consideram um pouco, digamos, diferente. Outros são mais sinceros e me chamam de louco (rsrs). Mas o fato é que eu não sabia o que havia de errado comigo. Eu sabia que não me importava muito com a organização das coisas, mas quando alguém mexia na ordem dessas coisas desorganizadas eu ficava agoniado, até irritado.

Até hoje tenho esta característica. Longe de ser uma pessoa das mais organizadas (sendo este o maior motivo do meu excesso de distração), mas sou extremamente planejador. Todos os passos precisam estar desenhados para que eu consiga entender o que, quando e como precisa ser feito ( 5w2h, sabe?)

A coisa era tão séria que eu perdia o foco pelo simples fato de ter que escolher uma camisa para usar. Inclusive pedi para que minha esposa “sumisse” com todas as camisas que eu tinha e padronizei em no máximo 4 cores “em tons de cinza” (sem segundas intenções) rsrs.

Essas intervenções minimalistas para escolher uma simples camisa, ou estrutura de aplicativos que me ajudam a retirar o excesso de coisas da cabeça realmente funcionam. Os especialistas afirmam que isso ocorre devido à redução da carga em nossa memória de trabalho.

No Wikipedia, está escrito que a memória de trabalho (ou também chamada de memória operacional) é um sistema cognitivo com capacidade limitada, responsável por reter temporariamente as informações disponíveis para processamento. A memória de trabalho é importante para o raciocínio e a orientação da tomada de decisões e do comportamento. A memória de trabalho é frequentemente usada como sinônimo de memória de curto prazo, mas alguns teóricos consideram as duas formas de memória distintas, assumindo que a memória de trabalho permite a manipulação de informações armazenadas, enquanto a memória de curto prazo se refere apenas ao armazenamento de informações de curto prazo.

Alguns exemplos do uso da memória de trabalho: Quando alguém pede para você se lembrar de alguns números; Quando você apenas se lembra de tudo que precisa ser feito em sua cabeça; ou Quando você deixa em sua cabeça tudo o que tem que fazer, em vez de colocá-la em sua agenda, isso sobrecarrega sua memória de trabalho, e consequentemente, desgasta.

E, como um pendrive ou um HD, a nossa memória operacional não é infinita. Muitas informações armazenadas na memória de trabalho causam falta de espaço.

Eventualmente, os dados são excluídos. Para que sua memória de trabalho tenha um bom desempenho, ela precisa do máximo de espaço possível. Quando as pessoas mantêm listas de tarefas, calendários, check list ou to do List (no meu caso um depósito de TemQ), é isso que estão fazendo – liberando sua memória de trabalho para coisas mais importantes.

A conclusão que tiro é que nosso cérebro ainda não evoluiu no ritmo em que a tecnologia evoluiu. A demanda que os ambientes modernos colocam em nossa memória de trabalho é incrível. Além das tarefas normais, eventos programados e informações de que você precisa se lembrar, há informações sensoriais como: alertas de centenas de aplicativos de mensagem, de grupos, mensagens de propaganda, comentários em seus posts, atualização de todos os apps, Spotify, YouTube, música, vídeos… áudios diversos, sem contar a vizinha batendo uma madeira no chão do quarto às 23h, ou uma criança chorando as 4 da manhã;

Para obter um nível minimamente aceitável de desempenho de sua memória operacional, você precisa encontrar uma forma de inibir essa torrente de estímulos. Na sociedade moderna, ninguém tem uma grande capacidade de atenção, a menos que faça o que for preciso para ter uma.

Então, quando ouço alguém reclamando que não conegue se concentrar, lembrar nomes, lembrar de coisas que precisam ser feitas, eu imediatamente olho para elas e me pergunto “quais intervenções” elas poderiam utilizar?

Eis as dicas que surgem para mim:

a. Lista de tarefas + calendário

Quando as pessoas me dizem que têm a capacidade de atenção de um peixe, a primeira coisa que me pergunto é se elas têm uma lista de tarefas ou um calendário. Se não o fizerem, eu acho “não, sua capacidade de atenção está bem” – porque se sua capacidade de atenção for curta e você não tiver um calendário e uma lista de tarefas, você terá dificuldade em organizar sua vida.

A primeira (e mais básica) coisa que você pode fazer para aumentar sua capacidade de se concentrar é pegar uma lista de tarefas e um calendário e usá-los todos os dias. É libertador.. rsrsrs.

b. Silencie o seu telefone

De todas as maneiras pelas quais a vida moderna distrai, o telefone é claramente o campeão – seu telefone processa centenas de notificações por dia, todas elas competindo constantemente por sua atenção.

Então, se você me disser que tem a capacidade de atenção de um peixe e eu vir que a tela de bloqueio do seu telefone está completamente cheia de notificações, vou pensar que a única razão pela qual você está distraído é porque se deixou distrair.

Se você quiser ser capaz de se concentrar, desligue as notificações do telefone.
A dica master é que você tire todas. Não apenas quando você está trabalhando, mas o tempo todo. As únicas notificações que recebo do meu telefone, hoje,  são para:

  • Ligação para o Telefone, 

  • Mensagens (só da minha esposa e de pessoas muito especiais)

  • Relógio (alarmes para acordar e para largar os aparelhos eletrônicos 1h antes de dormir);

  • Lembrete de “produtividade” três vezes ao dia ( as 09h, as 13 e as 17h recebo uma mensagem me perguntando se estou ocupado ou produzindo.

  • Slack (trabalho)

  • Calendário (me lembra de eventos importantes). Atualmente, para você ter ideia, não faço parte de nenhum grupo que não me acrescenta nada (os 5  grupos que tenho hoje são 3 profissionais e 2 pessoais)

É isso. Não tenho joguinho, não perco tempo em mídia social (na verdade, só uso para estudar e analisar as métricas, além de treinar novas habilidades), nenhum tipo de notícia, podcasts fora do turno de aprendizado.. Não posso permitir que meu telefone me distraia quando estou tentando me concentrar.

c. Minimize a quantidade de coisas 

A coisa mais legal que descobri nestes dois últimos anos foi o conceito de essencialismo. Tudo o que você possui produz uma carga cognitiva. Cada posse que é algo que você deve olhar, pensar, processar, limpar, reorganizar e cuidar. E como as notificações do telefone, você não percebe a carga cognitiva até que ela esteja completamente fora de seu controle.

Muito embora não sendo muito organizado, odeio bagunça e excesso de coisas inúteis.  Claro que por morar com mais três pessoas, sendo duas dessas crianças, a organização é um desafio muito grande. Mas nada que com o tempo, e bastante suco de maracujá vamos alterando. rsrs

Para obter o máximo de memória de trabalho, tenha apenas coisas que usa regularmente e que sejam essenciais. Não falo do minimalismo onde para alguns a sua vida pode ser colocada dentro de uma mochila. Use o bom senso.

d. Amplie o “horizonte”

Outra coisa importante: as coisas precisam estar fora de vista; operamos na capacidade máxima quando temos um espaço limpo, organizado e simples que nos permite focar no que está à nossa frente, principalmente quando trabalhamos em escritórios ou em nossa própria casa (em vez de um monte de caneta, canecas com restos de café, pastas de documentos, postits e tubos de cola, apenas uma mesa “clean”). Se você puder colocar todos os seus papéis, livros, roupas e pertences em gavetas ou organizados em prateleiras, sua memória de trabalho agradecerá.

P.S. Se você tem alguma coisa em volta da casa, você vai doar, vender ou arrumar, faça dinheiro ou se livre de tudo. Itens como esse são apenas tarefas físicas, distraindo você com suas necessidades toda vez que você coloca os olhos neles.

Remova a distração de uma vez por todas.

e. Delete os emails que não são importantes.

Assim como as notificações do seu telefone causam sobrecarga sensorial, o seu e-mail com certeza também rouba muuuita energia. É difícil saber o que está acontecendo em sua vida quando sua caixa de entrada é uma pilha infinita de coisas com as quais você não lidou. Seu cérebro irá querer arrumar aquilo o tempo todo e sempre chamará a sua atenção para “não vai arrumar aquela caixa”. Juro que digo isso por experiência própria.

A boa notícia é que limpar seu e-mail é um negócio simples: Aprendi com Geronimo Theml  a escolher um e-mail pessoal e torná-lo o e-mail principal. Mando tudo para lá. 

A sugestão é não use uma “conta de lixo eletrônico”, nem envie assuntos pessoais para seu e-mail de trabalho e não tenha e-mails separados para finalidades diferentes (se você puder evitá-lo, evite). Cada conta de e-mail que você possui é uma conta de e-mail que você deve verificar, gerenciar e limpar.

Ah… outra dica te dou outra dica – Cancele a assinatura de todos os boletins que você não leu no último mês. se você sempre pensa que irá “lê-los mais tarde” saiba que é pura mentira. Você não irá.

Sem contar os cupons da pasta Spam ou piadas engraçadas – se você não leu no último mês, você não vai. Agora tudo o que esse lixo se tornou foi “tarefa a fazer”.

Finalmente… Exclua tudo com mais de seis meses. Se você ainda não respondeu a alguém, vai ficar mal para você tentar fazer isso agora!

Eu cancelei a assinatura de praticamente todos os meus e-mails. Mesmo os poucos que permanecem são excluídos quase instantaneamente. Agora o e-mail também não pode me distrair

Essas são maneiras comuns das pessoas aliviarem a carga de sua memória de trabalho, mas não são as únicas. Qualquer coisa em sua vida que represente algo que você tem que controlar, por cinco minutos ou cinco meses, é algo que pesa em sua memória de trabalho. Quanto mais fácil você puder fazer em sua memória de trabalho, melhor.

Por fim, use essas intervenções em todos os momentos

Sua memória de trabalho não melhorará instantaneamente no momento em que você começar a fazer essas coisas. Se houver alguma coisa, sua memória de trabalho ficará pior – agora você deve se lembrar de atualizar sua lista de tarefas e calendário, verificar seu telefone manualmente, etc.

Esses hábitos levarão tempo para serem construídos. Mas depois de duas ou três semanas, os hábitos se manterão e sua memória de trabalho aumentará dramaticamente. Isso ocorre porque, como seus músculos, sua memória de trabalho precisa ser treinada. Não melhora ou piora instantaneamente. Em vez disso, precisa de tempo e espaço para crescer.

Em “Como Remover o Facebook da Sua Vida”, o escritor Dan silvestre observa como a exclusão de sua conta do Facebook produziu um aumento em sua memória de trabalho.

Da mesma forma, como os fumantes respiram melhor a cada semana depois de parar, o aumento na minha capacidade de atenção foi incremental. No início, foi difícil se concentrar por mais de alguns minutos em uma tarefa. Gradualmente, ficou mais fácil e agora estou muito melhor em fazer trabalho profundo por um longo período de tempo.

Minha própria história é um tanto semelhante. Ao longo de alguns meses quebrei meu vício por telefone. Agora, eu uso meu telefone por menos de uma hora por dia.

Então eu apaguei minhas redes sociais. Não, claro que não. Mas não deixo mais ela tomar conta da minha vida. Como eu disse, tenho buscado diariamente levar o essencialismo a sério. 

Agora eu possuo: Dois Nichos de armário cheia de roupas. Alguns poucos de livros. E 5 mentores nas áreas que considero fundamentais para a minha vida: Desenvolvimento pessoal, produtividade, empreendedorismo, marketing e vendas e saúde física e mental.

Com isso eu percebi que algo aconteceu por conta própria, como um milagre – eu conseguia me lembrar dos nomes das pessoas. Durante toda a minha vida, não consegui me lembrar de nem mesmo me alimentar, quanto mais lembrar o nome das pessoas, e de repente agora sou a pessoa que todos pedem lembretes de nomes. Na verdade, o título original deste artigo seria “Como sempre lembrar do nomes das pessoas”.

Mas não são apenas nomes. Posso me lembrar de todos os tipos de coisas. Lembro-me dos nomes de novas pessoas pela primeira vez. Lembro dos números de dos boletos (aqueles infinitos) com certa facilidade. Lembro-me da grande ideia que tive enquanto estava caminhando. Meu Deus, eu me lembro de coisas que, confesso, chegam a me assustar.

Quando eu combino toda a minha memória de trabalho recém-disponível com as horas de tempo que recuperei do meu telefone e da mídia social e do e-mail, minha produtividade vai a pico. Já cheguei a escrever 3 textos em uma manhã. Dando tempo ao modo difuso trabalhar, conforme a professora  Barbara Oakley ensina em seus livros sobre aprendizagem, o meu cérebro tem me entregado coisas incrivelmente fantásticas.

Não é porque eu sou tão inteligente, ou supermotivado, ou abençoado com um cérebro neurodivergente (confesso que me considero inteligente, mas nem sempre estou motivado e definitivamente não sou neurodivergente). É porque, em vez de apenas me entregar a uma vida com pouca atenção, fiz algo a respeito e hoje consigo cair de cabeça no que realmente importa para mim, naquele momento.

A boa notícia é que se eu, um cara que era totalmente confuso e bagunçado, que às vezes deixava de comer pois “se esquecia” consegue descobrir como obter horas de produtividade ininterrupta regularmente, você também pode. E olha que nem falei sobre a Técnica Pomodoro… quem sabe volto a falar disso um dia.

Jaison Aureliano Franzen

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